segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A DIDÁTICA ANDRAGÓGICA DE JESUS


A DIDÁTICA ANDRAGÓGICA DE JESUS


Edson Sobreira Alves*
“Aplica o coração ao ensino e os ouvidos às palavras do conhecimento” (Provérbios 23.12)
RESUMO
Neste artigo o autor, procura mostrar a importância do método de ensino teológico usado por Jesus. Ele escolheu homens adultos nos diferentes seguimentos daquela sociedade, assim ele usou a andragogia[1]. Durante os três anos ele aplicou uma perfeita didática para o sucesso na formação dos discípulos. A principal missão de Jesus foi entregar sua vida como sacrifício pelos pecados. A missão dos doze discípulos escolhidos – espalhar o Evangelho a todas as nações. Homens simples, alguns até de duvidoso caráter dentro da sociedade. A maioria, pescadores, outros, como cobradores de impostos, odiados pelos próprios patrícios. Jesus, com base em sua formação judaica, usou em suas preleções expositivas para o ensino do Evangelho. O uso dos mandamentos bíblicos foi importante para seu ensino, pois era cotidiano de seus ouvintes. Ele usou parábolas, método eficaz no contexto judaico. Tanto seus discípulos quanto seus inimigos, ficavam admirados, pois os ensinava com autoridade e humildade.
PALAVRAS-CHAVE
Andragogia; Ensino; Jesus; Parábolas.
INTRODUÇÃO
O ser humano é munido de intelecto que favorece um constante aprendizado, desde seu nascimento ao longo de sua vida e até sua morte, ele não cessa de aprender. Há diferentes métodos de aprendizados para diversas faixas etárias. A criança começa a aprender por imitação, observando seus pais, desenvolvendo a fala e naturalmente usando seus membros superiores e inferiores para pegar e andar respectivamente. O desenvolvimento da comunicação começa com sua necessidade da alimentação onde seu primeiro sinal de expressar que está na hora de comer algo é através do choro. Quando todos esses processos primários e naturais estão basicamente desenvolvidos, começam a surgir maior atenção e orientação da parte dos pais e dos educadores para formação daquele indivíduo para a sociedade. Dependendo da forma e do conteúdo de aprendizado somados ao contexto social em que vive e ao que recebe durante suas duas primeiras décadas de vida, resultará em uma pessoa bem sucedida ou mal sucedida.
O povo judeu, no Antigo Testamento e no início do Novo testamento foi orientado na formação de sua vida pelos princípios teológicos do Deus de Israel. A base do ensino judaico acerca das leis que regiam esse povo, eram amplamente e rigorosamente inseridas, em suas mentes desde sua infância (Deuteronômios 6.4-9), através do judaísmo que por sua vez serviu como base da formação do cristianismo.
Diante disso, queremos observar alguns aspectos e o propósito da educação teológica através do método usado pelo Senhor Jesus na formação dos doze discípulos, considerando um dos propósitos: a Grande Missão. Assim teremos uma visão clara da eficácia dos métodos de ensino empregados pelo Senhor Jesus Cristo.
Pode-se observar que este estudo mostra três pontos principais que serviram como base para o ensino de Jesus e assim entendermos porque ele foi bem sucedido. Os pontos são: os mandamentos do Antigo Testamento, as parábolas como recurso didático para embasar os ensinos e as boas novas que é o Evangelho que interage com seu próprio testemunho e o propósito de vida do próprio professor, Jesus.
I.                   O USO DOS MANDAMENTOS DO ANTIGO TESTAMENTO
Jesus sendo judeu tinha como base, de seus estudos teológicos, o judaísmo que influenciava no âmbito tanto religioso quanto cultural e social de um povo escolhido e separado por Deus. Os judeus tinham a preocupação de inserir sua religião como formação de sua sociedade regida pelo Deus de Israel. Desde Abraão, seu patriarca, o povo de Israel recebeu os ensinos pela tradição passando de pai para filho, que passaram a serem os preceitos morais e cerimoniais.
Todos os ensinos da tradição foram compilados a partir dos cinco primeiros livros das Escrituras, chamado “Pentateuco”, fazendo parte inicial da Bíblia do Antigo Testamento que foram escritos por Moisés, mas “inspirado por Deus” (2 Timóteo 3.16). Portanto, o povo com os ensinamentos de Deus em mãos foram passando para novas gerações através da didática da repetição, decoração de versículos, leitura pública da Palavra, preleções e exortações de profetas, juízes, sacerdotes e reis. Eles contavam as histórias do seu povo, e o próprio Deus interagia com eles, os ensinando e os inspirando a escreverem os registros bíblicos, completando assim o Antigo Testamento.
Os livros do Antigo Testamento se transformaram em um manual de ensino ao povo de Israel, com leis morais, leis cerimoniais, que orientavam todos a adorarem e a obedecerem ao único Deus (Monoteísmo). Uma grande nação que fora perseguida e dispersa.
O Antigo Testamento começa mostrando a criação e o princípio da humanidade na terra. Ele dá respostas claras do princípio de tudo e do poder do Criador, mostra também a condição do homem destituído de Deus por causa do pecado da desobediência, um Deus misericordioso que levanta uma nação separada das outras para voltarem a adorar um Deus único. Finalmente mostra uma promessa para remissão do pecado da humanidade vinda através dos próprios judeus.
Jesus aparece nos tempos do Novo Testamento, trazendo boas – novas  para um povo perdido, o Evangelho. Jesus começa seu ministério escolhendo dentre a multidão de pessoas que estão lhe seguindo, doze homens, que serão preparados para uma grande missão. Durante aproximadamente três anos, Jesus ensina estes homens e dá inicio a maior mudança que humanidade pode ter durante toda sua existência.
Os judeus, doutores da Lei, os fariseus, os escribas começaram a observar uma mudança muito grande, que nunca houve antes. E testaram Jesus procurando algo em que o condenasse. Mas ele ensinava como quem tinha autoridade (Marcos 1.22) e humildade. Tudo o que ele aprendeu no judaísmo serviu como base para seu novo ensinamento acerca do Evangelho. Ele preparou seus apóstolos para serem enviados para espalhar seus ensinos a toda as nações. Nota que Jesus escolheu pessoas de diversos segmentos na sociedade, pescadores, coletores de impostos e outros. Ele não escolheu crianças que pudesse começar do zero formando o caráter de cada uma delas, mas iniciou com adultos, com caráter já formado e pressupostos de suas experiências de vida, assim ele não usou a pedagogia para ensiná-los, mas usou a andragogia.
 Segundo Antônio Carlos Gil (2007, p.12) o termo “Andragogia é usado para referir-se à arte e a ciência de orientar os adultos a aprender”.
 A Andragogia “fundamenta-se nos seguintes princípios: No conceito de aprendente; necessidade do conhecimento; motivação para aprender; o papel da experiência e prontidão para o aprendizado” (Gil, 2007, p. 12, 13).
A Andragogia usada por Jesus como didática possibilitava um aprendizado mais eficaz devido haver “variáveis comuns aos alunos” (os discípulos), “ao professor” (Jesus) e ao “curso”(o Evangelho com base do Judaísmo) (Gil, 2007, p. 13-16).
II.                O USO DAS PARÁBOLAS
Jesus usou as parábolas como um recurso didático para passar aos seus discípulos aquilo que ele queria que eles aprendessem.
Parábolas era um costume didático do judaísmo, também usado nos tempos do Antigo Testamento.
O que realmente significa a parábola? Para entendermos um pouco sobre o significado da parábola, o intérprete de parábolas do século XX, Jeremias (apud KENNETH BAILEY[2], 1995, p.12,13) observou:

Esta palavra (parábola) pode significar, na linguagem comum do judaísmo pós-bíblico, sem que recorra a uma classificação formal, formas figurativas de linguagem de todos os tipos: parábola, símile, alegoria, fábula, provérbio, revelação apocalíptica, enigma, símbolo, pseudônimo, pessoa fictícia, exemplo, tema, argumento, apologia, refutação, anedota.

Jesus usou muitas parábolas. No Evangelho de Lucas onde elas são mais citadas, podemos observar uma delas como exemplo, a mais conhecida, a “Parábola do Semeador”, em seu comentário, (WIERSBE, 2009, p.258) faz uma introdução, ele escreveu:
                              
Um dos temas centrais de Lucas 8 é como desenvolver a fé e usá-la nas experiências diárias da vida. Na primeira seção, Jesus apresentou os fundamentos, ensinando a seus discípulos que a fé vem por receber a Palavra de Deus em um coração compreensivo. Na segunda parte, os fez passar por várias “avaliações” para ver quanto haviam aprendido de fato. A maioria de nós gostaria de escapar das avaliações, às quais, muitas vezes, somos submetidos depois das lições! No entanto, é nas provas da vida que a fé se desenvolve e que nos aproximamos de Cristo.

III.             O USO DAS BOAS-NOVAS
Ao estudarmos o evangelho de Jesus, nossa preocupação principal não pode ser com sistemas acadêmicos de teologia, nem com opiniões específicas de certos teólogos acerca de uma determinada doutrina. (MacArthur, 2008, p. 28).
Jesus ensinava para as multidões (Sermão do Monte), ensinava para seus apóstolos, e ensinava para indivíduos exclusivamente.
Uma das passagens mais marcantes e fundamentais de todo o Evangelho e porque não dizer de todas as Escrituras, tanto do Antigo Testamento como do Novo Testamento é o versículo que é conhecido em todo o mundo e que resume todo o plano de Deus para a humanidade. Ele está no Evangelho de João no capítulo 3 no verso 16 que diz: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Esta passagem se originou de um diálogo de Jesus com um doutor da Lei, o fariseu chamado Nicodemos. Jesus está ministrando um ensinamento profundo para um homem inteligente diante daquela sociedade Judaica. Nicodemos tinha uma posição honrada, segundo alguns comentaristas, ele temia ser visto em público com Jesus, então, ele foi à noite falar com Jesus para tirar algumas duvidas de seus ensinos.
Segundo MacArthur (2008, p. 46) sobre o encontro de Jesus com Nicodemos, ele diz:
Trata-se do primeiro encontro evangelístico pessoal de Jesus registrado nos evangelhos. Ironicamente Jesus, que tanto confrontou a falta de fé dos fariseus e seu antagonismo cabal, iniciou o seu ministério evangelístico atendendo a um líder fariseu que O procurou com uma declaração solene e entusiasmada. Poderíamos esperar que Jesus recebesse Nicodemos calorosamente e interpretasse a sua atitude positiva como uma profissão de fé, mas esse não foi o caso. Longe de encorajar Nicodemos, o Senhor Jesus, que conhecia a incredulidade e a auto-justiça existente no coração dele, tratou-o como incrédulo.
Jesus ensina Nicodemos que apesar de sua posição ele precisava nascer de novo. A expressão “nascer de novo” ficou marcada pelos cristãos como o marco da reconciliação do homem para com Deus. A analogia foi clara, Jesus mostra a ação da Criação mais sublime que Deus proporcionou ao homem de gerar sua própria espécie agora ele diz ao homem que ele tem que nascer de novo, mas do Espírito. A didática Andragógica torna-se explicita pela própria experiência do homem em gerar uma nova vida. Portanto, fica claro que seu novo nascimento que também é a renovação sua vida voltada aos conceitos fundamentais do cristianismo.
CONCLUSÃO
Conclui-se que os ensinos de Jesus transformaram o mundo que conhecemos e proporcionou uma visão clara e correta de quem somos, como vivemos e como devemos viver. Jesus não somente fez escolhas certas, também foi bem sucedido em seu propósito. Mesmo como homem em suas limitações ele provou que a humanidade é a criação mais sublime de Deus, e que toda a história gira em torno de Jesus Cristo proporcionando ao homem a solução para suas indagações inconclusas por si só. Vivendo como homem, Jesus interagiu com sua criação e deu oportunidade de uma abertura grandiosa de conhecimento que o homem jamais conseguiria enxergar. Ele mostrou que o ensino bem estruturado com amor e métodos que envolvem os indivíduos em seu cotidiano mesmo imperfeito, pode lhes proporcionar uma consciência limpa para ter como base o próprio Criador para sua reconstrução como um indivíduo se tornando e se posicionando como o Filho do Deus vivo.
ABSTRACT
In this article, the author tries to show the importance of theological teaching method used by Jesus. He chose adult men in different segments of that society, so he used andragogy. During the three years, he applied a didactic perfect for success in the training of disciples. The primary mission of Jesus was giving his life as a sacrifice for sins. The mission of the twelve disciples chosen - spread the Gospel to all nations. Simple men, some even of doubtful character within society. Most, fishermen, others, such as tax collectors, hated by their own compatriots. Jesus, based on his Jewish background, used in his expository lectures for the teaching of the Gospel. The use of biblical commandments was important in his teaching, for he was daily lives of his listeners. He used parables, effective method in the Jewish context. So much his disciples as his enemies were amazed, because he taught them with authority and humility.
KEYWORDS
Andragogy; Jesus; Education; Parables.


REFERÊNCIAS
BAILEY, Kenneth E. As Parábolas de Lucas. Tradução de Adiel Almeida de Oliveira. 3. Ed. São Paulo: Vida Nova, 1995.
GIL, Antônio Carlos, Didática do ensino superior. São Paulo: Atlas, 2007.
MACARTHUR JR, John F. O Evangelho Segundo Jesus. 2. Ed. São José dos Campos: Editora Fiel, 2008.
WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo – Antigo Testamento – volume 1 – Pentateuco. Tradução de Susana E. Klassen. Santo André: Geográfica editora, 2009.





*O autor é batista da Igreja Batista Regular de Mangabeira (IBRM), Pastor da IBRM, professor do Esdras – Instituto Teológico Bíblico. Está fazendo Mestrado em Exposição Bíblica pelo Seminário Batista Logos de São Paulo e radialista da Kadoshi Web Rádio. Graduado em Teologia Exegética pelo Seminário Batista do Cariri – CE (SBC), e graduado em Economia pela Universidade Regional do Cariri (URCA), também é pós-graduado em Administração pela Faculdade Leão Sampaio.
[1]Andragogia é a arte ou ciência de orientar adultos a aprender, segundo a definição creditada a Malcolm Knowles, na década de 1970. O termo remete a um conceito de educação voltada para o adulto, em contraposição à pedagogia, que se refere à educação de crianças (do grego paidós, criança).
[2] Dr. Kenneth Bailey viveu por 47 anos no Oriente Médio onde, como estudioso da área do Novo Testamento, foi professor em várias instituições de ensino, entre elas o Tantur Ecumenical Istitute for Theological Research, em Jerusalém.